Pela 1ª vez em trinta anos de história democrática, Portugal tem um Presidente da República de direita.
Queria tê-lo visto ganhar como sempre me habituei a ver; a ouvi-lo ríspido em firmezas políticas de alta amplitude como sempre ouvi; queria percebê-lo ganhador como sempre entendi
- homens como ele nunca perdem, menina
e há um magote de macacos agarrados a uma felicidade torta escrita em cartazes de 1991. Há este magote de macacos que não conhece lealdade a uma cor nem sabor a uma dor: há um enorme e terrível magote gigante de macacos de rabo longo agarrados a galhos secos de árvores estéreis que riem felizes o riso das hienas
- que sabem
que avistam a presa ao fundo da floresta.
- olha ali menina: a podridão humana é fétida como o cheiro a urina.
Porque os outros se mascaram mas tu não
porque os outros usam a virtude
para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são túmulos caiados
onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia M. B. Andersen
segunda-feira, janeiro 23, 2006
sexta-feira, janeiro 13, 2006
and we're always fuckin
13 de Janeiro de 1966
Meu amor:
Disseram que a reacção alérgica do tomate do almoço de ontem fez-me isto: uma imensa vontade de ter-te a toda a hora como se o mundo para lá disto não existisse, como se não tivessemos cortinas no quarto, como se o pão com fiambre soubesse a pão com queijo francês.
Diz-me se me engano que o tempo que leva até me vires buscar é aquele que desenha o caminho da lua em redor da terra, ou vens no momentoem que esta carta atravessar o atlântico e tu a tocares com o olhar.
Fechada aqui esqueço-me das facas da cozinha, da forma como a faca da cozinha falava comigo sem ninguém saber, como ela me dizia coisas bonitas
- tens um pescoço lindo, posso tocar-te?
e me pedia para lhe mostrar os pulsos
- mostra-me os teus braçinhos
e eu nunca percebi porquê tanto sangue se doía tão pouco.
Meu amor:
Disseram que a reacção alérgica do tomate do almoço de ontem fez-me isto: uma imensa vontade de ter-te a toda a hora como se o mundo para lá disto não existisse, como se não tivessemos cortinas no quarto, como se o pão com fiambre soubesse a pão com queijo francês.
Diz-me se me engano que o tempo que leva até me vires buscar é aquele que desenha o caminho da lua em redor da terra, ou vens no momentoem que esta carta atravessar o atlântico e tu a tocares com o olhar.
Fechada aqui esqueço-me das facas da cozinha, da forma como a faca da cozinha falava comigo sem ninguém saber, como ela me dizia coisas bonitas
- tens um pescoço lindo, posso tocar-te?
e me pedia para lhe mostrar os pulsos
- mostra-me os teus braçinhos
e eu nunca percebi porquê tanto sangue se doía tão pouco.
quarta-feira, novembro 23, 2005
The past is a foreign country: they do things differently there
Eu ia reescrever tudo como se passou
- duas mulheres e tu deitada na tua cama a chorar por elas juntas, por elas juntas no espaço que era vosso e sempre será
duas mulheres em pé de volta de uma terceira deitada numa nudez de dor, alcoolizada, num quarto escuro de sentidos que outrora existiu limpo de luz
- enquanto ninho de afectos, enquanto lugar de amor
mas elas vieram juntas, entraram e estragaram tudo.
Eu ia falar desta mulher semi despida que as duas acabaram por vestir e cuidar, porque é ela o elo de ligação daquilo que se vai passar depois disto, numa outra casa, num outro abrigo cósmico onde estas se encontram despidas e se fodem como quem fode por amor
- ia jurar-te que não é sexo nem amor aquilo que as une: és tu
elas não sabem:
e tu ali.
Ia jurar-te se me encontrasse no mesmo planeta que tu, na altura, que seria eu quem teria levado o vinho e o queijo.
Pegaríamos nas coisas dela e faríamos a cremação.
Eu abriria a cova, tu colocarias objecto por objecto despedindo-te de cada um com o mesmo carinho com que um dia os conheceste: abririamos depois espaço ao fogo purificador.
Não sei.
Não sei mas poderia antes obrigar-te a procurá-la, obrigar-te-ia a escrever no chão da estrada da casa dela um amo-te
- amo-te em letras verdes garrafais.
De qualquer forma não ia dizer isto.
Ia contar-te que sim, que gosto do edredon da cama dele, que gosto do desenho perfeito da boca dele enquanto ri, que há qualquer coisa no corpo dele que me hipnotiza sempre que os seus dedos me tocam a pele para me dizer olá.
Eu ia confessar isto:
que a possibilidade de sentir o já sentido é improvável, mas existe uma outra possibilidade que desconhecia, uam outra possibilidade que saía do alcance do meu entendimento, da minha perspectivazinha limitada
- o amor volta em dobro se permitires
e faz com que tudo pareça ter sentido.
- duas mulheres e tu deitada na tua cama a chorar por elas juntas, por elas juntas no espaço que era vosso e sempre será
duas mulheres em pé de volta de uma terceira deitada numa nudez de dor, alcoolizada, num quarto escuro de sentidos que outrora existiu limpo de luz
- enquanto ninho de afectos, enquanto lugar de amor
mas elas vieram juntas, entraram e estragaram tudo.
Eu ia falar desta mulher semi despida que as duas acabaram por vestir e cuidar, porque é ela o elo de ligação daquilo que se vai passar depois disto, numa outra casa, num outro abrigo cósmico onde estas se encontram despidas e se fodem como quem fode por amor
- ia jurar-te que não é sexo nem amor aquilo que as une: és tu
elas não sabem:
e tu ali.
Ia jurar-te se me encontrasse no mesmo planeta que tu, na altura, que seria eu quem teria levado o vinho e o queijo.
Pegaríamos nas coisas dela e faríamos a cremação.
Eu abriria a cova, tu colocarias objecto por objecto despedindo-te de cada um com o mesmo carinho com que um dia os conheceste: abririamos depois espaço ao fogo purificador.
Não sei.
Não sei mas poderia antes obrigar-te a procurá-la, obrigar-te-ia a escrever no chão da estrada da casa dela um amo-te
- amo-te em letras verdes garrafais.
De qualquer forma não ia dizer isto.
Ia contar-te que sim, que gosto do edredon da cama dele, que gosto do desenho perfeito da boca dele enquanto ri, que há qualquer coisa no corpo dele que me hipnotiza sempre que os seus dedos me tocam a pele para me dizer olá.
Eu ia confessar isto:
que a possibilidade de sentir o já sentido é improvável, mas existe uma outra possibilidade que desconhecia, uam outra possibilidade que saía do alcance do meu entendimento, da minha perspectivazinha limitada
- o amor volta em dobro se permitires
e faz com que tudo pareça ter sentido.
quarta-feira, novembro 16, 2005
ohhh superman
O Superman. O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad.
Ohhh Superman.
O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad. Hi. I'm not home right now. But if you want to leave a message, just start talking at the sound of the tone. Hello? This is your Mother. Are you there? Are you coming home? Hello? Is anybody home? Well, you don't know me, but I know you. And I've got a message to give to you. Here come the planes. So you better get ready. Ready to go. You can come as you are, but pay as you go. Pay as you go. And I said: OK. Who is this really? And the voice said: This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes.
Here come the planes.
Não sei porquê mamã, mas não fiques triste.
Não consigo mais, não consigo mais ter histórias a morarem na minha cabeça enquanto apanho o metro e me lembro destas personagens que fazem vidas em cima da minha, que contam vidas em cima da minha, que me usam descaradamente para oxigénio lhes poder rasgar pulmões
- é alto, tem um sorriso perfeito e sinto cócegas na barriga quando ele vem
e eu submissa a dar-lhes tempo para se inventarem no meu quarto, para se inventarem na minha frente vivas, para me cobrirem de invejas porque elas têm o que eu nunca tive
- é alto com sorriso perfeito, sinto cócegas na barriga quando sei que ele vem e faz todo sentido acordar à noite e senti-lo na minha cama
(o que é o mistério da escrita, sabes?)
- é alto: o sorriso. Sinto as cócegas. Faz sentido ele deitado na minha cama, faz sentido amar-lhe dedos que fazem música nascer para os corpos dançarem
Os aviões mamã, aviões a dançarem com borboletas lá fora: borboletas que chegam a voar na impossibilidade de um 4 andar.
They're American planes. Made in America. Smoking or non-smoking? And the voice said: Neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds. 'Cause when love is gone, there's always justice. And when justice is gone, there's always force. And when force is gone, there's always Mom.
Hi Mom!
So hold me, Mom, in your long arms.
So hold me, Mom, in your long arms.
In your automatic arms.
- ele mamã, ele, o mágico que encanta corpos como serpentes, com música que lhe sai das pontas dos dedos
Não fiques triste mamã, voltei a escrever hoje. Foi hoje no metro. Vi-a a passar. Chama-se Helena e ama outra mulher.
Não sei como vou percebê-la se só sei amar corpos de homens:
- um em particular, um em particular que faz música, um em particular que me faz rir, um em particular que me leva a ver o mar e se preocupa se me esqueço das chaves em casa, um em particular com quem quero ir comprar pratos pretos japoneses
A Helena sentou-se ao meu lado no comboio e disse que voltava mais logo para me contar o resto.
Terei tempo.
Your electronic arms. In your arms.
So hold me, Mom, in your long arms. Your petrochemical arms. Your military arms. In your electronic arms.
- ele ? Talvez me ame.
Ohhh Superman.
O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad. Hi. I'm not home right now. But if you want to leave a message, just start talking at the sound of the tone. Hello? This is your Mother. Are you there? Are you coming home? Hello? Is anybody home? Well, you don't know me, but I know you. And I've got a message to give to you. Here come the planes. So you better get ready. Ready to go. You can come as you are, but pay as you go. Pay as you go. And I said: OK. Who is this really? And the voice said: This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes.
Here come the planes.
Não sei porquê mamã, mas não fiques triste.
Não consigo mais, não consigo mais ter histórias a morarem na minha cabeça enquanto apanho o metro e me lembro destas personagens que fazem vidas em cima da minha, que contam vidas em cima da minha, que me usam descaradamente para oxigénio lhes poder rasgar pulmões
- é alto, tem um sorriso perfeito e sinto cócegas na barriga quando ele vem
e eu submissa a dar-lhes tempo para se inventarem no meu quarto, para se inventarem na minha frente vivas, para me cobrirem de invejas porque elas têm o que eu nunca tive
- é alto com sorriso perfeito, sinto cócegas na barriga quando sei que ele vem e faz todo sentido acordar à noite e senti-lo na minha cama
(o que é o mistério da escrita, sabes?)
- é alto: o sorriso. Sinto as cócegas. Faz sentido ele deitado na minha cama, faz sentido amar-lhe dedos que fazem música nascer para os corpos dançarem
Os aviões mamã, aviões a dançarem com borboletas lá fora: borboletas que chegam a voar na impossibilidade de um 4 andar.
They're American planes. Made in America. Smoking or non-smoking? And the voice said: Neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds. 'Cause when love is gone, there's always justice. And when justice is gone, there's always force. And when force is gone, there's always Mom.
Hi Mom!
So hold me, Mom, in your long arms.
So hold me, Mom, in your long arms.
In your automatic arms.
- ele mamã, ele, o mágico que encanta corpos como serpentes, com música que lhe sai das pontas dos dedos
Não fiques triste mamã, voltei a escrever hoje. Foi hoje no metro. Vi-a a passar. Chama-se Helena e ama outra mulher.
Não sei como vou percebê-la se só sei amar corpos de homens:
- um em particular, um em particular que faz música, um em particular que me faz rir, um em particular que me leva a ver o mar e se preocupa se me esqueço das chaves em casa, um em particular com quem quero ir comprar pratos pretos japoneses
A Helena sentou-se ao meu lado no comboio e disse que voltava mais logo para me contar o resto.
Terei tempo.
Your electronic arms. In your arms.
So hold me, Mom, in your long arms. Your petrochemical arms. Your military arms. In your electronic arms.
- ele ? Talvez me ame.
terça-feira, julho 19, 2005
Ata-me
Queria dizer-te porque sofro, porque dói, mas tinha de me despir na tua frente, tinha de pôr-me nua na direcção dos teus olhos para que entendesses os meus porquês, os meus comos, nas vagas certezas dos meus quandos
- olha-me nua em cima da cama tua: sou a Pítia de Delfos bebêda, a boca pela qual Apolo se revela, a boca que se rasga sempre que o deus me viola na mostra do futuro a mortais sedentos de segurança no porvir
e tu não és imortal e fostes.
Queria confidenciar-te que faz toda a diferença o facto de haveres decidido morrer, haveres escolhido a porta da sala, o lençol, o descuido da limpeza da sala visível a quem te removeu o corpo:
decidiste morrer
(ele deixou-te quando o teu corpo e a tua alma ainda lhe sentiam a falta)
e os meus olhos brilham de lágrimas de orgulho por ter sido essa a causa do teu enforcamento:
amor
encontrado morto na sala por amor em enforcamento.
- olha-me nua, sou a Pítia de Delfos, a boca pela qual Apolo se revela, a boca que se rasga sempre que o deus me viola para mostrar futuros a mortais sedentos de segurança no porvir
e morreste.
Perdoa-me nunca ter comprado um livro na tua livraria depois de passar horas e horas a revistá-la, perdoa-me nunca mais ter parado para conversar contigo e com os teus dois olhos tristes de amor, perdoa-me o café por tomar, perdoa-me pela vitória do PSD nas últimas autarquicas, perdoa-me por aquele palhaço ter ficado na junta
4 votos apenas
(juro-te que os tiro de lá desta vez: desta vez sem ti)
e perdoa-me por ter esquecido na minha vida o amor pelo qual te mataste:
o amor que se torna justificação de fins e de meios, o amor pelo qual se come
se anda
se fode horas horas seguidas-seguintes,
horas felizes;
o amor, essa essência insana da existência humana cravada em nós desde a hora da concepção imaculada do milagre da vida:
tens toda a razão amado morto, a existência sem amor perde a funcionalidade e deixa de ter sentido
- Eu nua sou a Pítia de Delfos: a Pítia da boca rasgada pela voz do deus que se faz em mim para dar aos mortais o que pedem
Olha para mim rasgada a apontar a consequência fisiológica da tua morte:
todo o enforcado ejacula em post-mortem e tu vieste-te milésimos antes do suspiro final, como se ali escrevesses uma vingança ao teu Juliett vivo longe
no solitário prazer invejoso que tiraste na hora última do teu corpo condenado.
- Olha-me nua sou a Pítia violada e sacrificada pelos hexâmetros que os mortais me exigem da boca ensanguentada
dá-me tempo para acolher a tua morte e juntá-la a uma outra já curada.
Hoje apetecia-me apanhar borboletas sentada num parapeito dum 70º andar escorregadio, puxando-lhes asas em descuido.
- se havéis chegado aí, aí onde tudo é lírios e flores, mandai borboletas pretas à janela do meu quarto: dançaremos nus, juntos e felizes, à luz quente da lua morta.
- olha-me nua em cima da cama tua: sou a Pítia de Delfos bebêda, a boca pela qual Apolo se revela, a boca que se rasga sempre que o deus me viola na mostra do futuro a mortais sedentos de segurança no porvir
e tu não és imortal e fostes.
Queria confidenciar-te que faz toda a diferença o facto de haveres decidido morrer, haveres escolhido a porta da sala, o lençol, o descuido da limpeza da sala visível a quem te removeu o corpo:
decidiste morrer
(ele deixou-te quando o teu corpo e a tua alma ainda lhe sentiam a falta)
e os meus olhos brilham de lágrimas de orgulho por ter sido essa a causa do teu enforcamento:
amor
encontrado morto na sala por amor em enforcamento.
- olha-me nua, sou a Pítia de Delfos, a boca pela qual Apolo se revela, a boca que se rasga sempre que o deus me viola para mostrar futuros a mortais sedentos de segurança no porvir
e morreste.
Perdoa-me nunca ter comprado um livro na tua livraria depois de passar horas e horas a revistá-la, perdoa-me nunca mais ter parado para conversar contigo e com os teus dois olhos tristes de amor, perdoa-me o café por tomar, perdoa-me pela vitória do PSD nas últimas autarquicas, perdoa-me por aquele palhaço ter ficado na junta
4 votos apenas
(juro-te que os tiro de lá desta vez: desta vez sem ti)
e perdoa-me por ter esquecido na minha vida o amor pelo qual te mataste:
o amor que se torna justificação de fins e de meios, o amor pelo qual se come
se anda
se fode horas horas seguidas-seguintes,
horas felizes;
o amor, essa essência insana da existência humana cravada em nós desde a hora da concepção imaculada do milagre da vida:
tens toda a razão amado morto, a existência sem amor perde a funcionalidade e deixa de ter sentido
- Eu nua sou a Pítia de Delfos: a Pítia da boca rasgada pela voz do deus que se faz em mim para dar aos mortais o que pedem
Olha para mim rasgada a apontar a consequência fisiológica da tua morte:
todo o enforcado ejacula em post-mortem e tu vieste-te milésimos antes do suspiro final, como se ali escrevesses uma vingança ao teu Juliett vivo longe
no solitário prazer invejoso que tiraste na hora última do teu corpo condenado.
- Olha-me nua sou a Pítia violada e sacrificada pelos hexâmetros que os mortais me exigem da boca ensanguentada
dá-me tempo para acolher a tua morte e juntá-la a uma outra já curada.
Hoje apetecia-me apanhar borboletas sentada num parapeito dum 70º andar escorregadio, puxando-lhes asas em descuido.
- se havéis chegado aí, aí onde tudo é lírios e flores, mandai borboletas pretas à janela do meu quarto: dançaremos nus, juntos e felizes, à luz quente da lua morta.
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