quinta-feira, abril 13, 2006

A Mosca




Esta pequena hora,
sem o teu vulto, sem a tua espera,
foi uma hora triste;
foi como quando se acorda em primavera
já quando a primavera não existe.



(Figueira da Foz, 14 de Agosto de 1939: Miguel Torga)



A primavera sentou-se no carro e partiu.
Eras tu quem guiava o carro e eu não percebi. Colei o meu rosto triste ao vidro da janela e assisti-vos na partida.
Os meus olhos acompanharam-vos enquanto puderam e ficamos na janela a sofrer os três:
eu e os meus olhos.

Apareceu sem avisar uma varejeira na janela; matei-a com a ponta gentil dos dedos da mão direita virando-lhe o corpo de barriga para cima
- sem medo, sem pena

e soube esmagá-la atenciosamente pressionando os meus dois dedos lúcidos nela.
Imediamente os senti húmidos de morte. Era a minha mão assassina que sentia o sangue semi-frio
- como o doce da pastelaria que leva chocolate e chantilly

o sangue semi-frio da mosca: os meus dedos sujos do sangue da mosca gorda morta no vidro da janela grande do meu quarto.

O tempo da mosca se apartou.



quinta-feira, abril 06, 2006

Amo-te tudo


- Olha assim para mim e diz que me amas como fazes quando me queres despir

Sirvo-te uma sopa vermelha de sangue, uma sopa de bocados de carne da minha barriga que agora trago tapada em tecido para que não a saibas assim, para que não me descubras arquitecta de malvadez
- não quero que vás embora mas não aprendi a dizê-lo

tens malas feitas e tomas a tua última refeição nesta casa como se nada fosse, como se eu nada mais te fosse
- olha assim para mim e diz que me amas quando

a sopa quente fervilha no teu prato e eu olho em angústia a forma bruta como levas a colher aos lábios: bocados de mim a entrar em ti como eu sempre quis, como eu sempre desejei
- porque é que nunca me deste um filho ?

e eu
- um filho
a crescer-me na barriga arrancada

olho-te de soslaio enquanto
- sempre quis um filho teu

enquanto me como, enquanto me como também a mim na minha última sopa contigo
quente

uma sopa quente de carne minha : tenho mais pedaços de carne minha a ferver ao lume, fiz mais a contar com a tua fome de mim.

Eu gosto mais do suco da sopa, tu gostas mais da carne
- sempre nos completámos assim por partes, vizinha


Depois de ires vou-me sentar a chorar para ver televisão. Vou sentir daqui os teus passos até às malas, vou saber daqui o momento em que fechaste a porta e te foste de mim.
Aqui me saberei para sempre.

"To fear love is to fear life, and those who fear life are already three parts dead."


segunda-feira, março 20, 2006

I do love you

Moçambique, 20 Março 1953


Amor meu:

Quando receberes isto já devemos ter-nos encontrado e as saudades já devem ser menores.

Acordei num dia estranho, apetecia-me passar o dia colada às tuas costas como às vezes fazemos por graça enquanto passeamos juntos:
estar colada a elas faz-me carne continuada em ti
faz-me sentir pertence teu
bocado teu
carne tua


- se tu fosses um esquilo eu seria a esquila bonita do bosque por quem te deslumbrarias.

Imagino que roirías nozes a pensar em mim, abririas bolotas direcionando o teu pensamento para a minha boca peluda a mordê-las: nada teria mais sentido na minha vida de esquila do que ter-te nela.

Seria a esquila cheirosa que espera na árvore.

quarta-feira, março 08, 2006

Girls power

Lembro-me que gostavas de Cure.
Lembro-me do tempo que levava a fazer malas para apanhar Alfas, lembro-me de achar que qualquer hotel na cidade desconhecida ia servir perfeitamente: lembro-me de contar minutos.

Lembro-me de uma noite de santos populares, lembro-me do emplastro, lembro-me de teres passado mal e de pensar que podias morrer ali: lembro-me de sempre ter havido uma Julieta trágica em mim.

I would say I’m sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time I’ve said too much
Been too unkind I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try andLaugh about it
Hiding the tears in my eyes

’cause boys don’t cry

Lembro-me de ver Amelie Poulin e achar-me parecida com ela, lembro-me da tua pronúncia torta que me fazia rir, lembro-me de achar-te o máximo; de ir ás compras contigo para um jantar feito por nós - a fingir
numa casa que era nossa- a fingir
num amor que talvez tivesse funcionado- a fingir.

Lembro-me de numa noite perceber que não dava mais.

Lembro-me de comer chocolate e chorar, lembro-me de achar que foder era a única solução.
Lembro-me daquilo que se sente na ponta dos dedos quando alguma coisa nos diz ao ouvido que não dá mais.
Lembro-me de saber que ias e voltavas, e lembro-me de achar que tudo não passava senão de uma enorme taça de gelatina de cores com ar la dentro:

um dia uma colher fez-nos um enorme favor e matou-nos.


I would break down at your feet
And beg forgiveness

Plead with you
But I know that

It’s too late
And now there’s nothing
I can do
So I try to laugh about it

Cover it all up with lies
I try toLaugh about it

Hiding the tears in my eyes
’cause boys don’t cry

Choras tu agora por uma miúda vulgar que fez as malas de ti para outro.
Rio-me do peso que a ironia carrega nos homens e passeio-me num jardim de lótus japoneses temendo por ti:
acredito piamente que sofres.

I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay
But I know that it’s no use
That you’ve already
Gone away
Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted ...
I thought that you needed me more
Now I would do most anything
To get you back by my side
But I justKeep on laughing
Hiding the tears in my eyes
’cause boys don’t cry
Boys don’t cry

Lembro-me de um dia achar que se chorasse mais a minha pálpebra esquerda acabaria por rebentar e já me reconhecia numa qualquer ambulância a caminho do hospital:
lembro-me do riso adulto de alguém que me chamou ridícula e me convidou para ir às compras.
Lembro-me de ter aceite.

Lembro de descobrir que o tempo é um aliado brilhante nas questões do amor: traz-nos a pessoa certa para passarmos o resto da vida, afasta-nos de erros.

And yes boy...men do cry.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

logic is the ruin of the spirit

A dor israelita será sempre preferida ás bombas palestinianas porque os carros ficaram brancos pela seda da neve que caiu sem ninguém esperar, porque raramente dois pares de lábios cristalizam assim

- num toque de tempo que se faz momento
um momento estático para análise num determinado espaço

numa determinada posição

numa determinada organicidade que se quer perceber.




- porque nós os dois não estamos assim, eu não estou na nossa cama despida-sentada e tu não estás de pé para ires vestido, tu não estás de pé de costas para mim, para mim sentada :
eu não estou triste a querer dar-te beijinhos nas costas que pedissem desculpa por mim


(os beijinhos pequenos nas costas têm efeitos curativos milenares e ninguém sabe)

a querer que me deixes aninhar em ti porque o teu corpo é o resto do meu
é a continuação do meu
é o fim do meu.


Há alguém que nos quer congelar os lábios para nos microscopiar, para nos pormenorizar, para nos entender, para nos ver aqui na nossa cama onde fazemos amor com o tempo lá fora, ás escondidas dos outros



(nós, o nosso corpo e o tempo lá fora)

e ontem, ontem depois de nós contaram-me o fim da estória de amor que te falei por alto: a estória de amor da mousse de manga do frigorífico e uma mulher que sabia que a mousse lá estava.

Foi ontem que me contaram,
foi ontem que me disseram
que a mousse de manga recusou a boca que a havia querido por pertença.


A mousse de manga, ao contrário do previsto, atirou-se ao chão na recusa daquilo que sabia que se ia cumprir através dela, no ritual de alimento

(a boca a alimentar rejeitada pelo alimento)


mas a travessa de mousse ganhou vida própria e preferiu a aniquilação.
A mousse de manga deixou de amar.
O desejado deixou de se querer desejar.



Há teorias possíveis que me levam a suspeitar que esta mousse de manga entrará num ciclo de vida budista e renascerá como mulher.
Uma linda mulher com um respeito de solenidade por todas as mousses de manga em frigorificos com mais de 1 mês que esperam
- que esperam

que anseiam gélidas a colher que as ame como alimento sagrado de dádiva divina; a colher certa que as engorde e as faça felizes.
A felicidade sabe a mousse de manga.


Os lábios?
Juntos, quem sabe se não pela eternidade.