"Adoro Hollywood e Los Angeles. Eu adoro Hollywood. Ali tudo é de plástico.
Eu quero ser de plástico"
Andy Warhol
Eu nunca vou querer ser de plástico.
domingo, agosto 20, 2006
domingo, agosto 06, 2006
Trinta e três
como uma doença que cresce nas paredes da sala de estar, os meus pêlos crescem à maneira de árvores tristes semeadas nas pernas magras à velocidade do fogo
(às vezes os pêlos pediam o corte e eu negava-me para que se desenvolvessem e eu pudesse olhar-me ao espelho e sentir-me meio homem meio mulher)
eu nua com pêlos nas pernas crescidos e seios rijos perfeitos sou uma pessoa triste meio homem meio mulher
- o que é que sentes quando pões as mãos nas minhas árvores?
Há entradas num corpo novo por descobrir. Quando me senti pronta a explorar-me deitei-me nua no sofá até os ver olharem-me em fila: as fotografias da sala
- a minha mãe, o meu pai, os meus quatro irmãos, os avós mortos, os tios em cima do móvel a olhar para mim deitada
para que não olhassem para mim, para mim agora árvore
- sou uma árvore triste com medo
cada moldura, cada retrato virado de castigo para a paisagem bonita da parede
- para que não me vissem àrvore: meio homem meio mulher
a descobrir entradas secretas no meu novo corpo nu
- eu meio homem meio mulher.
(às vezes os pêlos pediam o corte e eu negava-me para que se desenvolvessem e eu pudesse olhar-me ao espelho e sentir-me meio homem meio mulher)
eu nua com pêlos nas pernas crescidos e seios rijos perfeitos sou uma pessoa triste meio homem meio mulher
- o que é que sentes quando pões as mãos nas minhas árvores?
Há entradas num corpo novo por descobrir. Quando me senti pronta a explorar-me deitei-me nua no sofá até os ver olharem-me em fila: as fotografias da sala
- a minha mãe, o meu pai, os meus quatro irmãos, os avós mortos, os tios em cima do móvel a olhar para mim deitada
para que não olhassem para mim, para mim agora árvore
- sou uma árvore triste com medo
cada moldura, cada retrato virado de castigo para a paisagem bonita da parede
- para que não me vissem àrvore: meio homem meio mulher
a descobrir entradas secretas no meu novo corpo nu
- eu meio homem meio mulher.
domingo, julho 16, 2006
as coisas aqui escrevem-se com o útero
porque há pigmentação nas frutas e nos legumes que travam o envelhecimento precoce da pele, porque existem cores e sentidos escritos com líquidos chegados do corpo vivo
(orifícios que não conheço por não serem meus: orifícios teus)
- um dia senti o cheiro do medo na minha cama depois de te teres levantado,
escreveste com as pontas das unhas nos meus lençóis
m-e-d-o
e hoje eu descasco cebola sozinha para um refugado especial: o teu corpo cortado em lascas num tacho de alumínio ao lume enquanto penso naquilo que deixaste escrito com parte do teu corpo,
unhas
- o medo e a cebola fazem-me chorar
e porque há coisas que dizemos através de palavras que podem ser assomadas de intensidade se à frente do nosso interlocutor cortarmos ossos de um joelho humano a servir em prato principal num almoço de primeiro dia do ano
- doeu-me tanto ver o que escreveste de mim nos nossos lençóis: tive de te apanhar os ossos, perdoa-me
ontem à noite foi uma almofada na barriga que me lembrou o ar a entrar e sair de mim
- porque vivo
(a almofada)
para cima
para baixo
- tenho o corpo alugado, só isso
para cima
para baixo
- e tenho pena do dia em que o tiver de deixar
para cima
para baixo
- debaixo da terra, mal protegido num caixão a devorar por bichos gulosos de visco cheios de fome:
uma fome de mim como nunca sentiste
para cima
para baixo
um dia morro porque o ar deixa de fazer almofadas na barriga subirem e descerem
-como o amor que o teu medo nos destruíu
para cima
para baixo
como quando somos felizes e só queremos andar descalços a dançar nus pela casa a dançar abraçados
- eu queria tanto andar nua contigo sem que sentisses medo
para cima
para baixo
e ai, percebo então que é possível que tenha morrido, e que, como tudo
- o medo e um tacho de refugado ao lume
para cima
para baixo
não sei como te dizer isto de outra forma mas não queria ser eu hoje a servir o jantar.
quinta-feira, julho 06, 2006
the attic
porque eu nunca achei que isto fosse possível: acordar aflita com as paredes a respirar perto de mim
- tão aflita para escrever
porque eu nunca achei que a asfixia fosse tão forte que parecesse real de morte, porque eu sempre achei que o recorte das linhas do meu corpo fosse existir para sempre dentro das tuas: eu sempre me quis coser a ti
mas hoje, quando me sentei para beber leite na cozinha, ouvi o último suspiro da mulher que se enforcou nos ponteiros do relógio da sala
- uma mulher bonita vestida de mim
alguém lhe jurou que não ia sofrer.
segunda-feira, junho 19, 2006
A race for rats to die
Há um bolo de chocolate grande em cima da mesa da casa onde se construíu uma festa.
Há esta mulher encostada à porta da cozinha, a olhar o bolo desde o momento em que aqui chegou. Há esta mulher a dizer ao bolo revestido da negritude viscosa do chocolate
(a dizer com as mãos que tremem na surdina das costas)
- que ninguém me abra com essa faca, que ninguém
porque se virmos bem, a mulher encostada à porta transpira o olhar para o bolo desde o minuto em que aqui chegou
- que ninguém me faça isso, que ninguém me corte com a faca
porque se atentarmos melhor, o bolo é fisicamente parecido com ela: envernizados os dois na pele que lhes cobre a carne, ambos lânguidos nos seus lugares, ambos quietos na espera do estremecimento daquilo que se há-de fazer ali
- não me quero exposta, não me façam isso
e no fim dos parabéns, do silêncio das velas apagadas, a faca entrou no bolo e a mulher encostada à porta caíu morta na simultaneidade do acaso.
Ontem cortei as unhas a pensar em ti.
Há esta mulher encostada à porta da cozinha, a olhar o bolo desde o momento em que aqui chegou. Há esta mulher a dizer ao bolo revestido da negritude viscosa do chocolate
(a dizer com as mãos que tremem na surdina das costas)
- que ninguém me abra com essa faca, que ninguém
porque se virmos bem, a mulher encostada à porta transpira o olhar para o bolo desde o minuto em que aqui chegou
- que ninguém me faça isso, que ninguém me corte com a faca
porque se atentarmos melhor, o bolo é fisicamente parecido com ela: envernizados os dois na pele que lhes cobre a carne, ambos lânguidos nos seus lugares, ambos quietos na espera do estremecimento daquilo que se há-de fazer ali
- não me quero exposta, não me façam isso
e no fim dos parabéns, do silêncio das velas apagadas, a faca entrou no bolo e a mulher encostada à porta caíu morta na simultaneidade do acaso.
Ontem cortei as unhas a pensar em ti.
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