(...)Há um cântico puro que sai da igreja do lado. Irmãs negras a pedirem coisas a Deus
-pai, filho e espírito santo
e toda a fé move o mundo.
Moçambique.
O cântico que lhes sai da boca protege-nos do que quer entrar pelas portas, pelas janelas
- mamã Inês, mamã
Há um recolher de corpos obrigatório ás 22h30, há uma padaria, há laudes ás 6.
Há meninos pretos que me agarram a saia e querem brincar
-mamã Inês, mamã Inês
e querem fazer roda, querem subir árvores.
Há leite a ser distribuído por estas bocas.
Bocas de crianças queimadas, crianças mudas, crianças sem unhas, crianças cegas
-sem pai, sem mãe,
sou eu aqui
crianças sem casa,
-mamã Inês, mamã Inês
crianças de 8 com corpos de 3, crianças com barrigas gigantes, com altos na cabeça. Crianças tristes, felizes, crianças com fome
- mata bicho, mamã Inês
crianças com sede, com rosto desfigurado, crianças que se agarram á parede para andar, crianças assustadas, crianças que soiltam gargalhadas leves quando lhes mordo a barriga, quando levanto o nariz para cima e reviro os olhos
- olha agora, uma porquinha
(e fico tão ridicula quando faço caretas)
crianças albinas, crianças a experimentar aguarelas, plasticinas, puzzles de borracha
-olhem eu aqui
crianças com cheiro de urina, crianças que são preciso carregar ao colo.
E há a Mimusa
- tem sida
e há o joão. Há o domingos, a carla, a Marisa.
Há o Ganino, a vóvó, a Lucinha
- e eu a brincar ás caplanas
e há o Fabião, a Natércia, e eu a fingir que agora sou macaca...
Há o agora porque aqui não há o antes nem o depois.
E agora?
Os cânticos de bocas virgens lá fora.
sábado, fevereiro 19, 2005
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Mo-çam-bi-que
Morreste à um ano, e continuas aqui da mesma forma: vivo.
Moçambique. Daqui a pouco.
Três malas prontas, enormes, completas
completas de t-shirts, de saias, de vestidinhos, de sandálias, de chinelos, de fotos, de pessoas, de saudades, de coisas não analisadas, de músicas especiais, de abraços dados, de abraços por dar, de mãos, de pés, de ombros, de livros, de medos, de segredos
- levo mesmo tudo quando em levo a mim
e ir.
Ir na realidade quente de quem sabe resumir a vida a estas três malas breves, resolvidas.
Ir sem reparar nas luzes, na sombra do chão, na inevitabilidade do a-seguir que mete medo
- fica. Fica
E sim, por favor, sem lágrimas num até já recorrente de quem sai á noite para dançar e volta de manhã
- vou dançar.
Até já
Até já quarto, até já cama, até já tempo, até já espaço, até já mundo. Até já Ana, até já Luís, até já Anto, até já Luxi, até já Joanne
- o Paulo vai comigo, ele vai sempre
até já mãe, manos, até já sobrinhos fabulosos. Até já livros, até já sitios, até já escrita, até já faculdade
- sim, eu disse até já
até já fotos, até já perfumes, até já make up. Até já coisas, objectos pessoais, até já momentos perpétuos.
Até já esquecimento, até já chocolate-quando-estou-com-medo, até já unhas por roer.
Moçambique. Daqui a pouco.
Três malas prontas, enormes, completas
completas de t-shirts, de saias, de vestidinhos, de sandálias, de chinelos, de fotos, de pessoas, de saudades, de coisas não analisadas, de músicas especiais, de abraços dados, de abraços por dar, de mãos, de pés, de ombros, de livros, de medos, de segredos
- levo mesmo tudo quando em levo a mim
e ir.
Ir na realidade quente de quem sabe resumir a vida a estas três malas breves, resolvidas.
Ir sem reparar nas luzes, na sombra do chão, na inevitabilidade do a-seguir que mete medo
- fica. Fica
E sim, por favor, sem lágrimas num até já recorrente de quem sai á noite para dançar e volta de manhã
- vou dançar.
Até já
Até já quarto, até já cama, até já tempo, até já espaço, até já mundo. Até já Ana, até já Luís, até já Anto, até já Luxi, até já Joanne
- o Paulo vai comigo, ele vai sempre
até já mãe, manos, até já sobrinhos fabulosos. Até já livros, até já sitios, até já escrita, até já faculdade
- sim, eu disse até já
até já fotos, até já perfumes, até já make up. Até já coisas, objectos pessoais, até já momentos perpétuos.
Até já esquecimento, até já chocolate-quando-estou-com-medo, até já unhas por roer.
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Driving you slow
(...)Perdoa-me.
Imaginei-te imensas vezes naquele sapato, imaginei a forma como nos poderiamos ter encontrado um ao outro, imaginei que ia gostar de ti.
Imaginei que beijas bem, que iamos rir, que aprendeste a despir meninas desde cedo com a tua vizinha do lado e que o querias fazer comigo.
E ias perguntar:
- posso beijar-te
e eu ia olhar para as minhas unhas, envergonhada e doce, e dizia:
-pode
Imaginei que iamos ver estrelas no tejadilho do teu carro, imaginei que ia ser delicioso e nunca imaginei que esta realidade fosse como guilhotina a cair-me no pescoço
-mas há um bebé morto numa barriga grande e apetece-me chorar
e não fosse ser nada como imaginei.
Imaginei que me ias escrever coisas bonitas debaixo da pele, que me ias lamber a bochecha
-o bebé morto também é meu pelo poderio dos afectos
e que depois de tudo apanhava o taxi e ia pelo caminho duma Lisboa serena, a pensar o que tinha sido feito, o que tinha sido dito
- a barriga?
a pensar que tinhas um queixo perfeito para trincar
- o bebé estava a dormir lá dentro. Morto.
Como mudar as fraldas a um bebé morto? sabes?
mas parece que a imaginação tem a força de um fio de uma teia de aranha
E não, não vamos combinar mais três-da-manhã-num sapato, vamos combinar num próximo milénio, numa próxima vida, numa próxima esfera de evolução que não toque a de hoje:
vamos combinar ser vizinhos quando nascermos outra vez
- o bebé? Ia ser um bocadinho meu e eu ia saber mudar-lhe as fraldas
e iamos ter cinco anos quando a minha mãe te convidasse para jantar depois das aulas
- a barriga? Enorme, ainda
e eu ia mostrar-te os meus lápis de cor novos na sala de estar, e tu ias ensinar-me a fazer um bico de pintainho para me beijares a sério,
a sério como os grandes
a sério como nas novelas
tão sério que eu ia fechar os olhos com muita força e ia ser tudo como tinhas prometido na hora do recreio.
Imaginei-te imensas vezes naquele sapato, imaginei a forma como nos poderiamos ter encontrado um ao outro, imaginei que ia gostar de ti.
Imaginei que beijas bem, que iamos rir, que aprendeste a despir meninas desde cedo com a tua vizinha do lado e que o querias fazer comigo.
E ias perguntar:
- posso beijar-te
e eu ia olhar para as minhas unhas, envergonhada e doce, e dizia:
-pode
Imaginei que iamos ver estrelas no tejadilho do teu carro, imaginei que ia ser delicioso e nunca imaginei que esta realidade fosse como guilhotina a cair-me no pescoço
-mas há um bebé morto numa barriga grande e apetece-me chorar
e não fosse ser nada como imaginei.
Imaginei que me ias escrever coisas bonitas debaixo da pele, que me ias lamber a bochecha
-o bebé morto também é meu pelo poderio dos afectos
e que depois de tudo apanhava o taxi e ia pelo caminho duma Lisboa serena, a pensar o que tinha sido feito, o que tinha sido dito
- a barriga?
a pensar que tinhas um queixo perfeito para trincar
- o bebé estava a dormir lá dentro. Morto.
Como mudar as fraldas a um bebé morto? sabes?
mas parece que a imaginação tem a força de um fio de uma teia de aranha
E não, não vamos combinar mais três-da-manhã-num sapato, vamos combinar num próximo milénio, numa próxima vida, numa próxima esfera de evolução que não toque a de hoje:
vamos combinar ser vizinhos quando nascermos outra vez
- o bebé? Ia ser um bocadinho meu e eu ia saber mudar-lhe as fraldas
e iamos ter cinco anos quando a minha mãe te convidasse para jantar depois das aulas
- a barriga? Enorme, ainda
e eu ia mostrar-te os meus lápis de cor novos na sala de estar, e tu ias ensinar-me a fazer um bico de pintainho para me beijares a sério,
a sério como os grandes
a sério como nas novelas
tão sério que eu ia fechar os olhos com muita força e ia ser tudo como tinhas prometido na hora do recreio.
quinta-feira, janeiro 20, 2005
The spiderman is always hungry
Dizem que já conseguem viver um sem o outro, que tem cortinados da sala diferentes, que a porta da sala é diferente, que vivem vidas diferentes.
Dizem que já são felizes.
Dizem que já não sentem a falta um do outro na cama, que já não experimentam arcas frigorificas, chãos da sala, casas de banho.
Dizem que mudaram.
Dizem que se passarem na rua, um muda para o outro lado da estrada: dizem que são civilizados, que se sabem tratar.
Dizem que tem outras pessoas, que casaram
- ela arranjou outro
ele arranjou outra
e que as festas foram grandes com as familias todas.
Dizem que moram perto um do outro sem saberem.
Dizem que da varanda de um se vê a varanda do outro. Dizem que no outro dia se cumprimentaram na secção do arroz no supermercado.
Dizem que iam os dois com as respectivas crias.
Dizem que primeiro se olharam nos olhos, que esticaram as mãos, que parecia que nunca um se havia despido para o outro, que nunca se haviam partilhado em horas de prazer, que pareciam estranhos.
Dizem que se apagou o que havia, dizem que a pele dela já não dava sinais da presença dele, dizem que ele desviou o olhar: dizem que o marido dela apareceu, que ela os apresentou.
Dizem
- e pouca gente sabe
que ela olhou para trás, quando se separaram.
Dizem que foi um olhar estranho.
E dizem
- dizem
não tenho a certeza mas dizem, que ele olhou também.
Dizem que já são felizes.
Dizem que já não sentem a falta um do outro na cama, que já não experimentam arcas frigorificas, chãos da sala, casas de banho.
Dizem que mudaram.
Dizem que se passarem na rua, um muda para o outro lado da estrada: dizem que são civilizados, que se sabem tratar.
Dizem que tem outras pessoas, que casaram
- ela arranjou outro
ele arranjou outra
e que as festas foram grandes com as familias todas.
Dizem que moram perto um do outro sem saberem.
Dizem que da varanda de um se vê a varanda do outro. Dizem que no outro dia se cumprimentaram na secção do arroz no supermercado.
Dizem que iam os dois com as respectivas crias.
Dizem que primeiro se olharam nos olhos, que esticaram as mãos, que parecia que nunca um se havia despido para o outro, que nunca se haviam partilhado em horas de prazer, que pareciam estranhos.
Dizem que se apagou o que havia, dizem que a pele dela já não dava sinais da presença dele, dizem que ele desviou o olhar: dizem que o marido dela apareceu, que ela os apresentou.
Dizem
- e pouca gente sabe
que ela olhou para trás, quando se separaram.
Dizem que foi um olhar estranho.
E dizem
- dizem
não tenho a certeza mas dizem, que ele olhou também.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
Composição sobre a floresta
Escola primária de Santo António, 23 de Maio de 1948
Isto é uma floresta: temos árvores, temos pica-paus, rouxinóis, folhas, flores, madeira, mel, abelhas
-odeio abelhas
temos borboletas, sol, carvalhos, bolotas no chão, fadas, gnomos
- tenho saudades tuas
temos coelhos nas tocas, temos cheiro a relva molhada, temos mochos de olhos grandes abertos na noite
-tenho saudades minhas, do que era
temos musgo colado á força das raizes das árvores, temos caracoletas, temos passarinhos de asas partidas
-ás vezes, ainda sinto a tua falta na minha cama
e temos ninhos, ovos, frutos bravos
- um dia destes vou ver-te e estico os lábios para me beijares
temos o som do vento, temos o som dos bichos, temos a essência da mais música
-não ias recusar-me um beijo pois não?
E a nossa aula acabou. A professora morreu.
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