Há um desenho de uma praia longa de sol, perfeita, que se rabisca aqui
Catembe, conhece?
A água branca de pedras, quieta, silenciosa e baixa; enganosa, cheia de camarões laranja gordos, cheia de búzios e conchas de uma grandeza preciosa.
Há logo ali uma aldeia de pescadores, uma aldeia pouco ligada ao mundo de muito dinheiro, de pouca gente, de casas pouco faustosas
(casas nada faustosas)
com pouco movimento, pouca acção, poucos rostos lisos e poucos rostos de pele branca
(nenhum rosto é liso, nenhum rosto é feito de pele branca)
e há uma negra a entrar na água: há uma jovem mulher negra, de peitos fartos, a chapinhar pés de vida própria que bailam a areia curvada à majestade do mar
- ela é levada pelos seus dois pés até ele.
Baila como se o mar o tivesse mandado chamar, como se ansiasse pelo seu corpo.
Ela vai consciente satisfazer-lhe o capricho: dá-lhe o corpo seu
(ancas e coxas negras fartas)
continuando incessante num ritmo corporal que se torna veloz.
Enquanto dança esquecida de si não nota que a água lhe vai chegando aos ombros: enquanto baila dentro no mar não se apercebe da fome das ondas que lhe engolem já olhos
nariz
boca
enquanto a ele se entrega
nesta loucura insana do movimento do corpo
(não repara, não vê)
que o peso da água: esse peso leve e pesado já lhe come cabelos, já lhe têm a alma.
sexta-feira, maio 13, 2005
sexta-feira, abril 15, 2005
Se eu morresse, tu choravas?
Mahotas, 2 de Abril de 2005
Morto.
A boca das virgens calou-se hoje. Não houve ninguém a cantar, e o sol nasceu forte e grande com um calor seco assassino.
A tristeza colou-se ás paredes da casa e a sensacão de perda faz-me acreditar que o mundo ficou mais pobre de repente.
Parece que lhes morreu um irmão, um pai, um melhor amigo.
Andam cabisbaixas, tristes, como se parte delas tivesse ido com ele
- é um dia triste, menina
e juntam-se de roda de uma televisao velha com imagens cheias de chuva e interrupcoes constantes para ver um pouco de um funeral longo e penoso
- vao levá-lo, menina
Eu sou a menina delas e também sinto o dia triste em mim.
Eu sou a menina silenciosa que lhes observa os passos sentada no chao da varanda do quarto, a menina que constantemente escreve num caderno de capa preta
- é um diário, menina?
Mais do que isso, irmã. A minha vida aqui. Tudo.
Cada situacao, cada instante, cada namorado assumido, rejeitado, desejado,
- eu sou este caderno de capa preta: estou escrita nele
E os cães da casa uivaram toda a noite. Muito.
Uivaram terrivelmente, como se a morte tivesse passado pelo portão e lhes tivesse dito olá.
Talvez tivesse passado e tivesse seguido para Roma: confesso que não sei.
Who am I to Know?I'm just a simple girl.
Morto.
A boca das virgens calou-se hoje. Não houve ninguém a cantar, e o sol nasceu forte e grande com um calor seco assassino.
A tristeza colou-se ás paredes da casa e a sensacão de perda faz-me acreditar que o mundo ficou mais pobre de repente.
Parece que lhes morreu um irmão, um pai, um melhor amigo.
Andam cabisbaixas, tristes, como se parte delas tivesse ido com ele
- é um dia triste, menina
e juntam-se de roda de uma televisao velha com imagens cheias de chuva e interrupcoes constantes para ver um pouco de um funeral longo e penoso
- vao levá-lo, menina
Eu sou a menina delas e também sinto o dia triste em mim.
Eu sou a menina silenciosa que lhes observa os passos sentada no chao da varanda do quarto, a menina que constantemente escreve num caderno de capa preta
- é um diário, menina?
Mais do que isso, irmã. A minha vida aqui. Tudo.
Cada situacao, cada instante, cada namorado assumido, rejeitado, desejado,
- eu sou este caderno de capa preta: estou escrita nele
E os cães da casa uivaram toda a noite. Muito.
Uivaram terrivelmente, como se a morte tivesse passado pelo portão e lhes tivesse dito olá.
Talvez tivesse passado e tivesse seguido para Roma: confesso que não sei.
Who am I to Know?I'm just a simple girl.
quarta-feira, abril 06, 2005
Se eu fosse uma formiga num carreiro, pisavas-me?
Sentadas aqui as duas a ver estrelas debaixo deste céu gigante parecemos gémeas.
Somos iguaizinhas de costas, na escuridão da noite africana.
Queria dizer-te uma data de coisas mas não posso: não percebes português e eu não falo changana.
Queria dizer-te que gosto de ti.
Não sei se é do teu diagnóstico
- esquizófrenia paranóide
se é pela forma como me olhas:tanto a rir estranhamente bem como com os dois olhos esgazeados á procura de uma faca para dar dor a um alguém
- devias saber que a nossa dor nao diminui quando infligida a segundos
Gosto de ti e gosto de me sentar aqui contigo. Gosto da forma como acho que gostas de mim.
A loucura sempre me fascinou.
Sempre que olho para a tua cicatriz penso que somos muito mais semelhante do que possas imaginar.
- eu também já tentei engolir o mundo para me matar...
Tu engoliste uma pedra e rasgaram-te a pele do pescoço para te salvar
- alguém te perguntou se querias ser salva?
E também o faria da forma que tu o fizeste: engoliria a minha pedra escondida no meu quarto.
És uma mulher única e apetecia-me abraçar-te.
Eu também quero ter um filho como tu tiveste
- a pessoa certa?achaste?
eu morro de medo de acertar no pai errado.
(...) E eu faria exactamente o mesmo que tu fizeste. Se encontrasse a minha cria morta também o punha na capulana para passear com ele pela cidade,
- como se vivesse
e podia cheirar mal que para mim seria sempre o cheiro perfeito do corpo saído do meu: amá-lo-ia pela eternidade.
Faria como tu. Até me encontrarem cantaria para ele embrulhado em mim, e não deixaria que mo levassem nunca, ainda que me amarrassem como fizeram contigo, depois de vos acharem em carinhos de mãe e filho que não se sabem despedir da vida.
Faria o mesmo que tu fizeste e é por isso que te amo, insana. : somos da mesma textura, iguais.
Temo dizê-lo alto porque elas não podem descobrir-me igual a ti:
- fariam-me o mesmo, atavam-me.
Não posso deixar que aconteça, entendes? Não posso.
Mas gosto de ti. A sério que gosto de ti.
Somos iguaizinhas de costas, na escuridão da noite africana.
Queria dizer-te uma data de coisas mas não posso: não percebes português e eu não falo changana.
Queria dizer-te que gosto de ti.
Não sei se é do teu diagnóstico
- esquizófrenia paranóide
se é pela forma como me olhas:tanto a rir estranhamente bem como com os dois olhos esgazeados á procura de uma faca para dar dor a um alguém
- devias saber que a nossa dor nao diminui quando infligida a segundos
Gosto de ti e gosto de me sentar aqui contigo. Gosto da forma como acho que gostas de mim.
A loucura sempre me fascinou.
Sempre que olho para a tua cicatriz penso que somos muito mais semelhante do que possas imaginar.
- eu também já tentei engolir o mundo para me matar...
Tu engoliste uma pedra e rasgaram-te a pele do pescoço para te salvar
- alguém te perguntou se querias ser salva?
E também o faria da forma que tu o fizeste: engoliria a minha pedra escondida no meu quarto.
És uma mulher única e apetecia-me abraçar-te.
Eu também quero ter um filho como tu tiveste
- a pessoa certa?achaste?
eu morro de medo de acertar no pai errado.
(...) E eu faria exactamente o mesmo que tu fizeste. Se encontrasse a minha cria morta também o punha na capulana para passear com ele pela cidade,
- como se vivesse
e podia cheirar mal que para mim seria sempre o cheiro perfeito do corpo saído do meu: amá-lo-ia pela eternidade.
Faria como tu. Até me encontrarem cantaria para ele embrulhado em mim, e não deixaria que mo levassem nunca, ainda que me amarrassem como fizeram contigo, depois de vos acharem em carinhos de mãe e filho que não se sabem despedir da vida.
Faria o mesmo que tu fizeste e é por isso que te amo, insana. : somos da mesma textura, iguais.
Temo dizê-lo alto porque elas não podem descobrir-me igual a ti:
- fariam-me o mesmo, atavam-me.
Não posso deixar que aconteça, entendes? Não posso.
Mas gosto de ti. A sério que gosto de ti.
sexta-feira, abril 01, 2005
kp...I saw your comment :P
Tenho medo das minhas ex-mulheres. Casei inúmeras vezes, amantizei-me umas quantas outras e nunca fiquei até ao fim: recuso-me a ver casas amarelas de portão azul pegarem fogo.
Não sei se tenho medo, se tenho pânico deste fogo: ir embora sozinho, depois da chegada dos bombeiros, parece-me justo.
Podia ficar e chorar, podia fazer a dança do fogo e regozijar-me enquanto tudo é lume, mas a mim só me apetece correr: fugir dali rápido.
Tenho muito medo que o fogo venha atrás de mim e me queime a cara como as minhas ex-mulheres gostariam que acontecesse.
Tenho medo que elas se unam em acusações e me ponham um pneu encharcado em petróleo á volta do pescoço, e me queimem vivo em aplausos: sei que o desejam.
Depois só temo a ideia de que alguma delas possa secretamentedeixar de controlar a concepção e me apresente uma criança dizendo
- é teu
e eu teria de olhar para ele e ver-me. Teria de olhar para ela e tê-la na incontabilidade dos meus dias: não poderia deixar metade do meu corpo, agora noutro, fugir-me pelas cidades e dar-se a outros homens.
Uma. Uma das minhas exs é capaz disso: é louca o suficiente para me fazer infeliz.
Foi capaz de me perguntar, durante a efervescência dos corpos, deitada nua debaixo de mim nú, a olhar para aquilo que tenho dentro dos olhos
-fazes-me um filho?
Eu não lhe disse sim.
Ela riu-se de mim com os seios descobertos, empurrou-me da cama e disse-me que não pedia um papá; que pedia um reprodutor de alta qualidade.
Só não ri porque doeu. Vestiu-se e não mais a vi.
Queria ter-lhe perguntado qual a cor de cortinas de sala que ela gostaria de ver numa casa marela de portão azul.
Não sei se tenho medo, se tenho pânico deste fogo: ir embora sozinho, depois da chegada dos bombeiros, parece-me justo.
Podia ficar e chorar, podia fazer a dança do fogo e regozijar-me enquanto tudo é lume, mas a mim só me apetece correr: fugir dali rápido.
Tenho muito medo que o fogo venha atrás de mim e me queime a cara como as minhas ex-mulheres gostariam que acontecesse.
Tenho medo que elas se unam em acusações e me ponham um pneu encharcado em petróleo á volta do pescoço, e me queimem vivo em aplausos: sei que o desejam.
Depois só temo a ideia de que alguma delas possa secretamentedeixar de controlar a concepção e me apresente uma criança dizendo
- é teu
e eu teria de olhar para ele e ver-me. Teria de olhar para ela e tê-la na incontabilidade dos meus dias: não poderia deixar metade do meu corpo, agora noutro, fugir-me pelas cidades e dar-se a outros homens.
Uma. Uma das minhas exs é capaz disso: é louca o suficiente para me fazer infeliz.
Foi capaz de me perguntar, durante a efervescência dos corpos, deitada nua debaixo de mim nú, a olhar para aquilo que tenho dentro dos olhos
-fazes-me um filho?
Eu não lhe disse sim.
Ela riu-se de mim com os seios descobertos, empurrou-me da cama e disse-me que não pedia um papá; que pedia um reprodutor de alta qualidade.
Só não ri porque doeu. Vestiu-se e não mais a vi.
Queria ter-lhe perguntado qual a cor de cortinas de sala que ela gostaria de ver numa casa marela de portão azul.
sexta-feira, março 25, 2005
Me, myself and I
Lourenço Marques, 25 de Março de 1959
Querida Genoveva:
As mulherzinhas vieram comigo no barco: deixaram a minha casa, os sitíos que frequentava em Lisboa e nas Caldas, o guarda-fatos da minha mãe, o sotão dos meus avós para me surgirem aqui.
Tenho medo delas.
Em desespero, convenci-as a vir ao meu quarto para chegarmos as três a um acordo: elas entraram, sentaram-se e avisaram-me que tinham uma exigência inicial, que tinhamos de nos desnudar as três
- a nudez tem um poder próprio
disseram.
Despi-me com elas. A minha tia entrou no quarto instantes depois e encontrou-me nua, sentada na cama a falar sozinha.
Sei que estão a arranjar tudo para o meu regresso para breve, por isso informo-a que não havará necessidade de responder à minha missiva.
da sua sempre amiga,
Maputo, 25 de Março de 2005
Foi um destes dias à tarde. Não estava sozinha na sala mas as paredes soltaram-se e afastaram-se do chão que as unia.
Os acordes iniciais de Numb, Linking Park, a entrarem-me pelos ossos e pela janela de vidro grande, aqui.
Aqui. Aqui a Km de uma civilização que se identifique com este tipo de sonoridade, aqui onde a cobertura rádio é má e a cobertura telefónica dá nos nervos
- Denunciaste-te
e o meu corpo gelou.
Encostei a testa ao vidro da janela até o som se esgotar. Perfeito.
Recebi uma carta da tua mãe ontem.
Aprendi que 1 ano, 2 meses e 23 dias depois as hemorragias estacam e dão lugar a cicatrizes profundas.
Há um jardim com flores frente á casa onde vivo: descobri que as flores falam entre si quando alguém passa por elas.
Aprendi a jogar ás pedrinhas, a fazer goiabada, a socorrer ataques em 3 segundos.
Aprendi a entrar numa sala só de crianças deficientes: a dar-lhes comida, a contar-lhes estórias que só entendem pelas expressões que o meu rosto adquire.
Aprendi que o Senhor Bila não gosta de falar dos filhos porque dois deles morreram vitímas de Sida
- e ele ainda não soube fazer cicatrizes
aprendi que o doce favorito do Fabito é gelatina tutti-frutti, que há um funcionário das irmãs que passa 30 minutos diários a ver-me correr atrás de uma árvore.
Aprendi a trepar, a dar upas a dois chocolatinhos ao mesmo tempo, a olhar com ódio para os brancos mal amados que olham para eles como não-me-toques-coitadinho-que-vai-morrer.
Aprendi que a minha coragem ás vezes faz-me correr riscos desnecessários, que as pessoas afinal podem mudar, que o céu africano foi pintado à mão mas ninguém sabe.
Aprendi que as pessoas não se perdem, se um dia houve em que as ganhámos.
Querida Genoveva:
As mulherzinhas vieram comigo no barco: deixaram a minha casa, os sitíos que frequentava em Lisboa e nas Caldas, o guarda-fatos da minha mãe, o sotão dos meus avós para me surgirem aqui.
Tenho medo delas.
Em desespero, convenci-as a vir ao meu quarto para chegarmos as três a um acordo: elas entraram, sentaram-se e avisaram-me que tinham uma exigência inicial, que tinhamos de nos desnudar as três
- a nudez tem um poder próprio
disseram.
Despi-me com elas. A minha tia entrou no quarto instantes depois e encontrou-me nua, sentada na cama a falar sozinha.
Sei que estão a arranjar tudo para o meu regresso para breve, por isso informo-a que não havará necessidade de responder à minha missiva.
da sua sempre amiga,
Maputo, 25 de Março de 2005
Foi um destes dias à tarde. Não estava sozinha na sala mas as paredes soltaram-se e afastaram-se do chão que as unia.
Os acordes iniciais de Numb, Linking Park, a entrarem-me pelos ossos e pela janela de vidro grande, aqui.
Aqui. Aqui a Km de uma civilização que se identifique com este tipo de sonoridade, aqui onde a cobertura rádio é má e a cobertura telefónica dá nos nervos
- Denunciaste-te
e o meu corpo gelou.
Encostei a testa ao vidro da janela até o som se esgotar. Perfeito.
Recebi uma carta da tua mãe ontem.
Aprendi que 1 ano, 2 meses e 23 dias depois as hemorragias estacam e dão lugar a cicatrizes profundas.
Há um jardim com flores frente á casa onde vivo: descobri que as flores falam entre si quando alguém passa por elas.
Aprendi a jogar ás pedrinhas, a fazer goiabada, a socorrer ataques em 3 segundos.
Aprendi a entrar numa sala só de crianças deficientes: a dar-lhes comida, a contar-lhes estórias que só entendem pelas expressões que o meu rosto adquire.
Aprendi que o Senhor Bila não gosta de falar dos filhos porque dois deles morreram vitímas de Sida
- e ele ainda não soube fazer cicatrizes
aprendi que o doce favorito do Fabito é gelatina tutti-frutti, que há um funcionário das irmãs que passa 30 minutos diários a ver-me correr atrás de uma árvore.
Aprendi a trepar, a dar upas a dois chocolatinhos ao mesmo tempo, a olhar com ódio para os brancos mal amados que olham para eles como não-me-toques-coitadinho-que-vai-morrer.
Aprendi que a minha coragem ás vezes faz-me correr riscos desnecessários, que as pessoas afinal podem mudar, que o céu africano foi pintado à mão mas ninguém sabe.
Aprendi que as pessoas não se perdem, se um dia houve em que as ganhámos.
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