quarta-feira, julho 28, 2010

Cartas a M. - XIV carta

Querida M.,

Estas cartas, um dia,acabarão.
Talvez não os nossos encontros na tua cozinha, nem as nossas saudades, nem a memória que fica do tempo que jogávamos ao elástico as duas
(eu, sempre tão descoordenada a tentar ser esguia e perfeita como as meninas que jogavam connosco, a tua mãe)

no ATL lá do sítio.



Estou a planear-te uma festa-de-anos-supresa. Daquelas que tu finges que não sabias e nós fingimos que tu não descobriste. Vou ter a cumplicidade do teu marido e dos nossos amigos. Tenho esperança, tenho uma enorme esperança que nesse sábado à tarde tenhas um minuto de distracção: uma quase-quase-quase alegria. Que no fim, pelo menos, possas sentir-te menos sozinha e um bocadinho mais feliz. Precisamos tanto de ser felizes, M. Precisamos, mesmo.

quinta-feira, julho 15, 2010

Cartas a M. - XIII carta

Fazes 26 anos.
Telefonei-te e desta vez atendeste. Imagino que tenha sido a pequena obrigação do dia. Falar com pessoas. Vê-las. Receber presentes.
Celebrar a vida com um morto às costas é coisa para adultos, M., e nós não crescemos assim tanto, crescemos?
Também tenho saudades da tua mãe. Saudades de saber que ela estava viva e talvez não saudades de estar, efectivamente, perto dela. Há uma segurança idiota em sabermos que as pessoas que amamos estão vivas, mesmo que não estejam perto, mesmo que não telefonem, mesmo que nunca tenhamos tempo para o tal café.

O tempo passa, M. Daqui a pouco faz um mês. E depois dois. E depois três. E depois chegam os anos e com eles dizem que chega uma dor meiga - o que quer que isso signifique.
De qualquer forma é claro.Um dia destes vais ter de deixá-la ir.

sexta-feira, junho 25, 2010

Cartas a M. - XII carta

Querida M.,

Não atendes os meus telefonemas nem respondes às minhas mensagens. Algo me diz que precisas de espaço e de tempo: eu vou saber dar-te os dois.

sexta-feira, junho 18, 2010

Cartas a M. - X carta

Querida M,.



Hoje a B. acordou-me com sms´s e eu disse-lhe que nos reuniríamos as 3 em breve.

Sábado estivemos juntas na mesa da tua cozinha, a expiar memórias sensíveis, a beber e a recordar a tua mãe. A carta que ela vos escreveu deu-lhe a paz que precisava para morrer e a vocês, matou-vos um bocadinho. Mata-vos sempre que a lêem.
Eu própria pedi mais vinho quando me estendeste o texto para as mãos porque não sabia – nem sei- como sobreviver a uma carta dessas. A tua mãe falava da felicidade com que tinha vivido: o nascimento dos filhos foi eleito o momento mais marcante e eu senti tanta pena de ti por teres ficado sem ela.

E a B. é mais forte do que nós. Ela não chorou.
Sei que gosto da ideia de esticar as pernas nas cadeiras da tua cozinha, ouvir-vos rir.

Acho que deves guardar essa carta muito bem guardada e um dia longe destes, deves mostrá-la aos teus filhos.