(é bom ter amigos a escrever assim)
"despeja o saco sobre a cama, a cama sobre o quarto, o quarto sobre o chão - enterrado na areia. despeja a boca sobre a mesa, a mesa sobre as pernas, as pernas sobre o infinito - desaparece. despeja a cabeça sobre ombros, os ombros sobre o tronco, o tronco sobre o terreno - preso na lama. despeja as sensações, as emoções, as razões, a falta delas - faz-te, finalmente, invisível. "
quarta-feira, outubro 13, 2010
terça-feira, outubro 12, 2010
A roubar uma citação da Srª Woolf (1882-1941)
"Para escrever ficção, uma mulher precisa de dinheiro e de um quarto que seja seu".
Still so true.
Still so true.
sábado, outubro 09, 2010
Cartas a M. - XVII
Querida M.,
O A. hoje encontrou-me aqui.
Ele já sabia - as pessoas vão sabendo- e abraçou-me com uma força estranha assim que me viu. Achei que me queria consolar, a minha intuição não me disse que aquilo não era para mim, que aquela força de braços não era para o meu corpo, era para o dele.
Contou-me que tem tentado sobreviver ao enterro de um bebé que a mulher ia ter. Passaram juntos o suplício do funeral de alguém que viveu com eles 6 meses numa barriga partilhada e bonita. Eu não vi aquela barriga crescer, nem tive oportunidade de conhecer a pessoa que lá estava dentro.E tenho pena. Mesmo.
Não sei o que se diz a alguém que perde um filho.
Os meus olhos engasgaram-se da mesma forma como quando soube que a tua mãe morreu; a minha garganta contraída de medo, sem nada para te dizer, e ao mesmo tempo a querer dizer-te tanto.
Cumprimentei a mulher do A. com a distância habitual mas apertei-lhe os dedos da mão com mais força na esperança que eles dissessem o que eu queria dizer: às vezes consigo que as minhas mãos falem por mim.
Reparei que tremia.
Convidaram-me para um chá. Eu aceitei.
O A. hoje encontrou-me aqui.
Ele já sabia - as pessoas vão sabendo- e abraçou-me com uma força estranha assim que me viu. Achei que me queria consolar, a minha intuição não me disse que aquilo não era para mim, que aquela força de braços não era para o meu corpo, era para o dele.
Contou-me que tem tentado sobreviver ao enterro de um bebé que a mulher ia ter. Passaram juntos o suplício do funeral de alguém que viveu com eles 6 meses numa barriga partilhada e bonita. Eu não vi aquela barriga crescer, nem tive oportunidade de conhecer a pessoa que lá estava dentro.E tenho pena. Mesmo.
Não sei o que se diz a alguém que perde um filho.
Os meus olhos engasgaram-se da mesma forma como quando soube que a tua mãe morreu; a minha garganta contraída de medo, sem nada para te dizer, e ao mesmo tempo a querer dizer-te tanto.
Cumprimentei a mulher do A. com a distância habitual mas apertei-lhe os dedos da mão com mais força na esperança que eles dissessem o que eu queria dizer: às vezes consigo que as minhas mãos falem por mim.
Reparei que tremia.
Convidaram-me para um chá. Eu aceitei.
quinta-feira, outubro 07, 2010
Cartas a M. - XVI carta
Querida M.,
É como tentar andar outra vez e eu não sabia. Esta é a hora de colar peças atrás de peças sem pedir ajuda a ninguém porque ninguém as saberá colocar no sítio certo como nós. Nós sabemos o sítio certo das nossas peças e os outros não. Só nós. É um segredo puro que se usa no corpo à laia de apêndicite ou pé partido.
Amanhã estaremos juntas. E eu tenho tanta coisa para te contar.
É como tentar andar outra vez e eu não sabia. Esta é a hora de colar peças atrás de peças sem pedir ajuda a ninguém porque ninguém as saberá colocar no sítio certo como nós. Nós sabemos o sítio certo das nossas peças e os outros não. Só nós. É um segredo puro que se usa no corpo à laia de apêndicite ou pé partido.
Amanhã estaremos juntas. E eu tenho tanta coisa para te contar.
sábado, setembro 25, 2010
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