segunda-feira, abril 09, 2007

A solidão dos músculos da boca do corpo.

o coração a encostar-se ao esófago,
o pulmão esquerdo a acarinhar o direito,
as pestanas, uma a uma,
a cortarem as raízes da pele dos olhos por raiva.


O rim a abraçar a bílis,
o intestino grosso a aninhar-se no delgado,
as artérias a deslizarem paredes ate às veias,
cada osso a seduzir um par.

(o corpo ensimesmado a ter-se)

A gordura amarela do corpo liquefeita,
-poça de água morna na tijoleira -
o cérebro sozinho a gemer de olhos fechados,
a pele a gritar,
o testículo a chorar desgosto no gémeo,
o seio direito a pedir recolhimento ao esquerdo.


A vagina a asfixiar-se no amarelecimento das pernas pesadas,
o meio do corpo que são os pêlos.

Olhos a fechar por dentro,
a boca a coser-se por fora,
os ouvidos a mirrar presos à cabeça.


Cabelos suicidas no lavatório da casa de banho do quarto,
as unhas a sentirem frio
os dedos da mão a caírem no chão,
por si, em aniquilamento
- seríamos os dois felizes se logo à noite não voltássemos a existir.