Segunda-feira, Novembro 02, 2009

I won´t be lost without you

"(...)Há esta mulher que ocupa, manhã atrás de manhã, o mesmo lugar no comboio que leva pessoas até ao Rossio, na quietude fria de carris de aço que se deitam nus no chão e nos fazem passar.
Há esta mulher bonita, que se senta gentilmente no mesmo assento, adormecendo os seus cabelos loiros e os seus medos assim que o comboio entra na plataforma de Barcarena.
Há esta mulher jovem, bonita e delicada, que dorme o rosto no vidro frio da janela, à laia de tristeza que se amamenta de pena.
Dentro da sua cabeça, um único pensamento se define:
-“ as tuas pestanas são duas vassouras novas de supermercado sob a minha pele triste, sob a minha barriga magra e angustiada, sob o meu sexo solitário. Limpas, com as tuas duas pestanas fartas, resíduos de mortos caídos nas curvas do meu corpo, dor instalada nos cantos do quarto, ao mesmo tempo que curas e anestesias.
Da mesma forma inocente, as tuas duas pestanas salvam, colam e reconstroem. Por alguma razão simples, todos os dias me varres assim, como um varredor de ruas muito velho, em ruas muito sujas, que todos os dias trabalha a cantar”

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Quem mais chora neste vale de lágrimas, senão os justos?

(texto dedicado à menina P. e às nossas estadias no Picoas Plaza)

Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.Eu não chorei no dia em que a minha mãe morreu.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Ophelia

(se ler este texto três vezes, três vezes desejaria ter sido eu a sua autora)

(...)Eu dizia. Eu era sempre o primeiro a dizer sim e não. O primeiro a dizer noite. A dizer água se chorasses. A tocar-te se a tua voz cedesse, se o silêncio apenas te fizesse magoar os olhos. Eu dizia. Mas nunca escutava. Mas dizia sim e não, e talvez e amanhã e quem sabe um dia. Mas tinha pressa de amar-te. Que em tudo houvesse um princípio e fim. Queria que o nosso amor fosse um ciclo completo, e para isso, teríamos de o matar. Entende que o nosso amor só morrendo poderia existir como um todo, como um amplo estádio da existência. Arrumá-lo finalmente na memória e viver com a sensação constante de perda, para assim pensá-lo eterno. Eu lutei pelo eterno que há nos nossos corpos. Eu dizia que sim, que matando um amor assim estaríamos mais perto da morte também, e estando perto da morte seria como se não houvesse um outro amor igual, e a vida, esgotada, desvanecendo-se diante dos nossos olhos. Eu queria essa dor dentro de nós, não porque apenas dizia sim ou não ou talvez, mas porque só assim era possível não sentir-me doente desse amor. E sabes bem o quão difícil é amar quando se está doente. Porque se protesta, porque nada nos chega, porque tudo é demasiado, porque nos queremos longe, ou muito próximos até cegar. Porque nunca sabemos o que dizer, amor, quando amor é tudo aquilo que sabemos dar e perder.




*Obrigada, Fernando

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

o-s-i-c-e-r-p e-d i-t

preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso de ti, preciso, preciso, preciso,preciso, preciso, preciso,preciso, preciso, preciso. De. Ti.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Será que ainda falas com ele como fazias antes de sermos velhos?




Tínhamos 18 anos e gostávamos tanto do corpo um do outro que tínhamos vontade de nos coser juntos em qualquer parte
- às escondidas da tua família, no meu quarto, atrás da igreja, num qualquer ermo de fácil acesso que nos permitisse intimidade: dormíamos juntos pelas pontas dos dedos

um beijo nosso durava 3 minutos e 47 segundos
(3 minutos e 47 segundos de uma língua que aconchega e transpira a outra)
e os olhos das pessoas sentadas no autocarro aguardavam a nossa morte por asfixia.
Vivemos escondidos da tua família. Ali éramos unicamente o nosso corpo e o nosso coração cosidos porque tínhamos 18 anos e sabíamos tão pouco do que viria a seguir.

Hoje vi-te mais velho: continuas alto e bonito. Trazias um livro que não era o dele. Lias. Questiono-me se ainda se falam ou se ele ainda te aparece como antes.
Gostei de te ver. És um homem: tens ombros e mãos maiores. Imagino que alguém te faça feliz todos os dias e fico mais feliz por ti. Gostava que nos tívessemos abraçado. Devíamos isso à nossa história: fazíamos um par giro nas duas únicas fotos que sobraram.

Ia aproveitar isto para te pedir um favor. Se logo à noite na tranquilidade do espelho da casa de banho ele se aproximar de ti para te dizer coisas, por favor, manda-lhe um abraço meu.