"(...)Há esta mulher que ocupa, manhã atrás de manhã, o mesmo lugar no comboio que leva pessoas até ao Rossio, na quietude fria de carris de aço que se deitam nus no chão e nos fazem passar.
Há esta mulher bonita, que se senta gentilmente no mesmo assento, adormecendo os seus cabelos loiros e os seus medos assim que o comboio entra na plataforma de Barcarena.
Há esta mulher jovem, bonita e delicada, que dorme o rosto no vidro frio da janela, à laia de tristeza que se amamenta de pena.
Dentro da sua cabeça, um único pensamento se define:
-“ as tuas pestanas são duas vassouras novas de supermercado sob a minha pele triste, sob a minha barriga magra e angustiada, sob o meu sexo solitário. Limpas, com as tuas duas pestanas fartas, resíduos de mortos caídos nas curvas do meu corpo, dor instalada nos cantos do quarto, ao mesmo tempo que curas e anestesias.
Da mesma forma inocente, as tuas duas pestanas salvam, colam e reconstroem. Por alguma razão simples, todos os dias me varres assim, como um varredor de ruas muito velho, em ruas muito sujas, que todos os dias trabalha a cantar”
aconhetecimento
Há 31 minutos
