segunda-feira, janeiro 24, 2005

Driving you slow

(...)Perdoa-me.

Imaginei-te imensas vezes naquele sapato, imaginei a forma como nos poderiamos ter encontrado um ao outro, imaginei que ia gostar de ti.

Imaginei que beijas bem, que iamos rir, que aprendeste a despir meninas desde cedo com a tua vizinha do lado e que o querias fazer comigo.
E ias perguntar:
- posso beijar-te

e eu ia olhar para as minhas unhas, envergonhada e doce, e dizia:
-pode

Imaginei que iamos ver estrelas no tejadilho do teu carro, imaginei que ia ser delicioso e nunca imaginei que esta realidade fosse como guilhotina a cair-me no pescoço
-mas há um bebé morto numa barriga grande e apetece-me chorar

e não fosse ser nada como imaginei.
Imaginei que me ias escrever coisas bonitas debaixo da pele, que me ias lamber a bochecha
-o bebé morto também é meu pelo poderio dos afectos

e que depois de tudo apanhava o taxi e ia pelo caminho duma Lisboa serena, a pensar o que tinha sido feito, o que tinha sido dito
- a barriga?

a pensar que tinhas um queixo perfeito para trincar
- o bebé estava a dormir lá dentro. Morto.
Como mudar as fraldas a um bebé morto? sabes?

mas parece que a imaginação tem a força de um fio de uma teia de aranha




E não, não vamos combinar mais três-da-manhã-num sapato, vamos combinar num próximo milénio, numa próxima vida, numa próxima esfera de evolução que não toque a de hoje:
vamos combinar ser vizinhos quando nascermos outra vez

- o bebé? Ia ser um bocadinho meu e eu ia saber mudar-lhe as fraldas

e iamos ter cinco anos quando a minha mãe te convidasse para jantar depois das aulas

- a barriga? Enorme, ainda

e eu ia mostrar-te os meus lápis de cor novos na sala de estar, e tu ias ensinar-me a fazer um bico de pintainho para me beijares a sério,
a sério como os grandes
a sério como nas novelas
tão sério que eu ia fechar os olhos com muita força e ia ser tudo como tinhas prometido na hora do recreio.


quinta-feira, janeiro 20, 2005

The spiderman is always hungry

Dizem que já conseguem viver um sem o outro, que tem cortinados da sala diferentes, que a porta da sala é diferente, que vivem vidas diferentes.
Dizem que já são felizes.

Dizem que já não sentem a falta um do outro na cama, que já não experimentam arcas frigorificas, chãos da sala, casas de banho.
Dizem que mudaram.

Dizem que se passarem na rua, um muda para o outro lado da estrada: dizem que são civilizados, que se sabem tratar.
Dizem que tem outras pessoas, que casaram

- ela arranjou outro
ele arranjou outra

e que as festas foram grandes com as familias todas.

Dizem que moram perto um do outro sem saberem.
Dizem que da varanda de um se vê a varanda do outro. Dizem que no outro dia se cumprimentaram na secção do arroz no supermercado.

Dizem que iam os dois com as respectivas crias.

Dizem que primeiro se olharam nos olhos, que esticaram as mãos, que parecia que nunca um se havia despido para o outro, que nunca se haviam partilhado em horas de prazer, que pareciam estranhos.

Dizem que se apagou o que havia, dizem que a pele dela já não dava sinais da presença dele, dizem que ele desviou o olhar: dizem que o marido dela apareceu, que ela os apresentou.

Dizem

- e pouca gente sabe

que ela olhou para trás, quando se separaram.
Dizem que foi um olhar estranho.
E dizem
- dizem
não tenho a certeza mas dizem, que ele olhou também.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Composição sobre a floresta



Escola primária de Santo António, 23 de Maio de 1948



Isto é uma floresta: temos árvores, temos pica-paus, rouxinóis, folhas, flores, madeira, mel, abelhas

-odeio abelhas

temos borboletas, sol, carvalhos, bolotas no chão, fadas, gnomos

- tenho saudades tuas

temos coelhos nas tocas, temos cheiro a relva molhada, temos mochos de olhos grandes abertos na noite

-tenho saudades minhas, do que era

temos musgo colado á força das raizes das árvores, temos caracoletas, temos passarinhos de asas partidas

-ás vezes, ainda sinto a tua falta na minha cama

e temos ninhos, ovos, frutos bravos

- um dia destes vou ver-te e estico os lábios para me beijares

temos o som do vento, temos o som dos bichos, temos a essência da mais música

-não ias recusar-me um beijo pois não?



E a nossa aula acabou. A professora morreu.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Keep your hands where I can see them

Já não me lembro.
Já não me lembro de como aprendi a chorar, a escrever, a atar os tennis.
Já não me lembro do baloiço da casa da minha avó, da àrvore que lhe entrava pela sala a dentro, de como ela dizia
- menina.

Não me lembro mais do dia em que ela adormeceu para sempre naquele dia de Natal
- a avó está a dormir mamã

e muito menos me lembro de as ter ouvido falar ás duas, meses depois, anos depois, numa campa de mármore branco em Benfica
- três fêmeas com o mesmo sangue nas veias

a minha mãe a limpar rebordos do mármore frio
a minha avó debaixo dele
eu a mudar a água das flores

-mas eles falam, mamã?

Já não me lembro delas naquela cumplicidade estranha
- de vida e de morte
comigo no meio
-diz-lhe que tenho saudades dela, mamã

Não em lembro mais do dia em que ele morreu
- está lá?

não me lembro mais de cair fulminada na cama e a minha mãe me suster a dor

- podes vir aqui ter comigo ao instituto de medicina legal?sabes onde fica?
Houve um engano e ninguém sabe.



Já não me lembro de mim antes disto, não me lembro de viver os últimos três dias, não em lembro de sentir amizade mais profunda e sincera pelas linhas de metro da estação de Entrecampos
- salta, salta

Não me lembro de mim, sentada no teu colo, a ouvir rouxinois, não em lembro mais de ti na minha cama, não me lembro mais do dia em que nos conhecemos
- chama a policia que um homem está ferido no comboio


Não me lembro mais de me rir contigo, de abrir-te portas, de te ver a mastigar.
Não me lembro de ferida maior, que precise de mais compressas, Betadine
que precise de maior número de agulhas, anestesia, pessoal capacitado e batas
do que esta de hoje.

Não me lembro mais de gritos e castrações
- tão parecido com o daddy

nem me lembro mais de um passeio, de estar sentada nele a chorar
a chorar por mim
por ti
e por um presente que se fez passado no meio de gente que nos olha com a curiosidade circense.

- estou aqui mamã, podes vir-me buscar?

Não em lembro de poço mais fundo, de tantas mãos, de tanta luz lá em cima: mão em lembro de esolha mais forte e mais letal do que aquela que vem no a-seguir,
num
a-seguir
demasiado próximo.




(...)Dá-me um beijo e provoca um Tsunami que faça o mar chegar-me á ponta dos pés para podermos chapinhar juntos e ser felizes no meio de conchas e carangueijos.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Joy to the world

(11 meses depois ainda existes)


Descasco cebola para um refugado especial: o teu corpo cortado em lascas num tacho de aluminio ao lume.

Porque há coisas que dizemos através de palavras que podem ser assomadas de intensidade se à frente do nosso interlocutor cortarmos ossos de joelhos humanos a servir em prato principal num almoço de primeiro dia do ano.

Ontem à noite tive uma almofada na barriga e percebi que o ar entra e sai de mim sem consentimento:
a almofada
para cima
para baixo


- tenho o corpo alugado, só isso

para cima
para baixo


- e tenho pena do dia em que o tiver de deixar

para cima
para baixo


- debaixo da terra, mal protegido num caixão a ser devorado por bichinhos gulosos e viscosos cheios de fome: fome de mim

para cima
para baixo


Um dia morro porque o ar deixa de fazer almofadas na barriga subirem e descerem
-como o amor

para cima
para baixo


-como quando somos felizes e só queremos andar descalços a dançar nús pela casa

para cima
para baixo

E ai, percebo então que é possível que tenha morrido, e que, como tudo,
- primeiro estranha-se depois entranha-se

para cima
para baixo


Não sei como te dizer isto de outra forma:
não sei como te explicar que o teu carro
que aquele bosque onde o costumas parar para me fazer gritar
que tu que eu que o teu corpo que o meu que o teu prazer que o meu que a minha cama que nós os dois nela que tu despido que eu ali que as minhas alucinações que a tua barba por fazer que as minhas unhas a cravarem felizes as tuas costas que aquilo que és ai dentro onde tudo se parte que o que eu sou aqui onde tudo arde que a música argentina que sempre me pediu o corpo que o cigarro que pões nos lábios depois de me olhares e rires que o medo que me vive debaixo da pele que a tua infelicidade militante

já não constroem nada juntos,


- só destroem

e que, já não fazem parte do mesmo puzzle:
que existem centenas de peças sem encaixe e so agora me apercebo da falta delas ali.