Tenho medo das minhas ex-mulheres. Casei inúmeras vezes, amantizei-me umas quantas outras e nunca fiquei até ao fim: recuso-me a ver casas amarelas de portão azul pegarem fogo.
Não sei se tenho medo, se tenho pânico deste fogo: ir embora sozinho, depois da chegada dos bombeiros, parece-me justo.
Podia ficar e chorar, podia fazer a dança do fogo e regozijar-me enquanto tudo é lume, mas a mim só me apetece correr: fugir dali rápido.
Tenho muito medo que o fogo venha atrás de mim e me queime a cara como as minhas ex-mulheres gostariam que acontecesse.
Tenho medo que elas se unam em acusações e me ponham um pneu encharcado em petróleo á volta do pescoço, e me queimem vivo em aplausos: sei que o desejam.
Depois só temo a ideia de que alguma delas possa secretamentedeixar de controlar a concepção e me apresente uma criança dizendo
- é teu
e eu teria de olhar para ele e ver-me. Teria de olhar para ela e tê-la na incontabilidade dos meus dias: não poderia deixar metade do meu corpo, agora noutro, fugir-me pelas cidades e dar-se a outros homens.
Uma. Uma das minhas exs é capaz disso: é louca o suficiente para me fazer infeliz.
Foi capaz de me perguntar, durante a efervescência dos corpos, deitada nua debaixo de mim nú, a olhar para aquilo que tenho dentro dos olhos
-fazes-me um filho?
Eu não lhe disse sim.
Ela riu-se de mim com os seios descobertos, empurrou-me da cama e disse-me que não pedia um papá; que pedia um reprodutor de alta qualidade.
Só não ri porque doeu. Vestiu-se e não mais a vi.
Queria ter-lhe perguntado qual a cor de cortinas de sala que ela gostaria de ver numa casa marela de portão azul.
1 comentário:
Sejam muito felizes..
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